Valter Hugo Mãe e a verdade dentro de cada livro

Escritor português em visita à cidade falou sobre tecnologia, boa fé e rebeldia dentro da literatura

 

“Essas novas gerações que estão mais afastadas dos livros, chegarão a seu tempo, a seu momento e descobrirão que através dos livros estarão mais perto do que é verdade”. Mesmo ao reconhecer tempos obscuros quando trata-se de informação e leitura, o escritor português Valter Hugo Mãe, celebra a lucidez através da boa fé que acredita ser necessária para o despertar de um novo tempo. O escritor chegou à cidade esta semana. 

 

A fala sincera sobre o futuro, vem embasada num constante observar do presente, onde identifica a obsolescência iminente e detecta em hábitos milenares, a redenção da boa fé e do conhecimento. “Estamos passando por um tempo de adaptação a essa nova tecnologia, que está influenciando  não somente as novas gerações, mas também aos mais velhos, que continuam a frequentar o mundo não a partir da experiência direta , mas através da mediação da virtualidade. O que acontece é que estamos em fase de uma aprendizagem e de um certo reajuste”.  

 

O desenvolvimento dessa tecnologia, de acordo com ele, virá com o tempo e certamente estará fadada não apenas ao esquecimento, mas também ao cansaço pela exposição exagerada. Em meio a um comportamento de consumo imediato, o escritor revela-se otimista, mesmo quando as evidências apontam para um consumo desenfreado de informações sem embasamento ou cuidado. “Houve uma impressão de que a virtualidade poderia carregar os livros nas plataformas, e isso não está acontecendo. As livrarias tradicionais estão reabrindo nas grandes cidades da Europa e Estados Unidos, mas o Brasil ainda apresenta esse caminho inverso”. 

 

Para ele o ato de quase troca dos livros por informações instantâneas ofertadas pelas redes, tende a retornar ao que classificou de disciplina paciente do livro. “A palavra no livro continua ter um poder temível, e muitas vezes quando um assunto  se torna inevitável ou queremos conferir solenidade a algo, é curioso ver, que isso opera a partir de um livro. Não é entrevista na tv, meios de comunicação, twitter, tudo que informe criando confusão em nossa vida. No momento de criar uma tentativa de inscrição da verdade, normalmente isso acontece com um livro”, comenta.

 

Novos leitores

Sobre as motivações para atração de novos leitores ou mesmo o fomento da leitura entre os pequenos, o escritor mostra-se persistente; “não adianta oprimir ninguém, tão pouco as novas gerações ao uso do livro. É preciso que livro seja exposto. O livro precisa ser tema de conversa, precisa entrar no jornal da noite, na imprensa, as pessoas que estão munidas da capacidade de ler precisam ostentar a importância do livro e sua qualidade”. 

 

Os exemplos também, devem vir, de casa, numa antiga mas verdadeira constatação;“o problema de uma criança não passar perto de um livro, é que os pais também não passam. Os pais precisam ter consciência de que se fossem leitores estariam mais fortalecidos como cidadãos. Minha sensibilidade me diz que um bom leitor é criado pela alegria gerada em torno do livro”.

 

Essas alegrias, também podem ser celebradas com encontros, feiras e conversas entre público, jornalistas e escritores. “As feiras são manifestações de democracia, todos os espaços criados ao diálogo são garantias da democracia, por isso devem ser garantidos e livres. O encontro é um exercício de paridade e igualdade, por isso interessa a manutenção da boa fé”.

 

Mesmo com o bombardeio de discursos inflamados, de opiniões diversas, Mãe celebra a possibilidade do diálogo. “Posso aceitar o que você pensa, desde que você debata isso comigo e com os outros nesse exercício.Hoje é o que mais está em perigo, essas informações inclinadas por motivações obscuras e não assumidas. A oposição nunca vai terminar, vamos sempre ter confronto de ideias”.

 

Rebeldes

Aos felizardos leitores, Mãe confere a possibilidade do vislumbre da verdade pelos livros. “Livros desmascaram e não esquecem. Eles ficam na biblioteca décadas e o que tiver dentro deles não dá pra esquecer. A pessoa que lê livro , revela  uma intenção de não se conformar, de não ser reativa ou se informar com brevidade. Ela é informada com profundidade”, decreta. Mesmo diante da tendência de arregimentação de pessoas como rebanhos facilmente dirigíveis através da informação volúvel, ele crê na redenção; “alguém que opta por ler, é alguém que está revelando-se, está a rejeitar essa possibilidade de ser arrebanhado”. 

 

Se há uma perturbação na sociedade, um descontrole no que é consumido como informação, um retorno à entropia dos costumes, ou dificuldade de criar um senso comum, o escritor  aponta direto à ferida; “estamos sendo informados de forma perversa, e por isso não conseguimos um pensamento, uma rede de segurança que todos entendamos”, e aguarda com parcimônia a resposta; “ O livro ainda é um reduto de alguma resistência,  um espaço de tremenda resistência cultural e onde existe uma vocação para a humanização”. 

 

Após a tempestade, a calmaria, e para Mãe, após a catarse, uma nova percepção deve ser retomada, e a criar uma necessidade a partir do ponto de resistência onde estão os livros, voltando à consciência de que desejamos ser vistos como ‘pessoas de rigo’, de opinião, e especialmente de gestos. “Mesmo em meio a todo grotesco que possamos estar instalados  vai haver sempre alguém com ansiedade pela verdade, por instalar uma realidade paritária de valor humano”.