A Mulher na Arte de Foz

Quem são as mulheres que produzem, expressam e manifestam a arte em Foz do Iguaçu e na região trinacional? “A mulher na arte de Foz” é uma ação de comunicação que consiste em uma série de entrevistas com artistas locais e fecha a programação do Mês da Mulher “Por todas e cada uma”. É uma pequena janela para mostrar e valorizar nossa pulsante produção artística feminina, que emerge vibrante em uma terra única, marcada pela força da natureza e da humanidade.

Literatura

Ela tem uma intimidade com as palavras, que suas obras tocam, ora como navalhas, ora como bálsamos, desvendando as facetas da condição humana. Ela dobra, desdobra, reinventa a realidade, toca. Com três obras primorosas, a trajetória da escrita dessa mulher da arte de Foz é um exemplo do aperfeiçoamento e maturidade que da busca incessante pelo encontro da palavra com a sensorialidade e a complexidade humana. A autora de “Lobos nos Telhados”, “Flor e Cimento” e “Cronópio Godot”, livro prefaciado pelo consagrado Pedro Bandeira, nos convida para as possibilidades infinitas da literatura. Escritora, mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e com uma experiências como educadora, coordenadora do Ponto de Cultura “Uma Cidade Literária” e palestrante pela empresa Repertório Mágico. Ela é Jeane Hanauer: mais uma mulher que se destaca na arte de Foz.

Jeane Hanauer

Como começou essa paixão com a palavra?

A “coisa” toda (risos) começou quando eu ainda era criança. Desde sempre sou obsessivamente fascinada pela linguagem. Digo sempre que sou refém das palavras. Desde pequena devorava livros e gostava de escrever. Por isso optei pela gradução em Letras e pelo Mestrado também em Letras. Escolhi como linha de pesquisa a Análise do Discurso e meu fascínio pelo universo da comunicação aumentou visceralmente. Durante muitos anos fui “acumulando” poemas nas gavetas mas, até então, nunca havia me ocorrido publicar. Eu escrevia por necessidade, para exorcizar coisas. Até que, lá pelas tantas, comecei a pensar em tornar aquilo público. Então, em 2000, veio à tona o primeiro livro, Lobos nos Telhados. Inicialmente eu tinha comigo que tudo já estava dito aí, mas os poemas continuaram surgindo, sempre num processo meio “psicográfico”, de forma autônoma e “arbitrária”. Uma catarse. E em 2005 surge o convite da Editora Paricah (RJ) para publicação de Flor e Cimento.

E em que momento se entregou à escrita de forma mais intensa, como profissão?

A partir desse livro (Flor e Cimento) as coisas foram tomando outras proporções e decidi então me dedicar mais intensamente e de forma mais profissional à escrita. Esse período foi muito interessante principalmente por que havia um grupo de escritores da cidade e região dispostos a “arregaçar as mangas” e difundir a produção local. Realizamos muitos eventos, ações, parcerias, etc, através desta entidade que depois passou a se chamar Academia de Letras de Foz do Iguaçu (ALEFI), mas que não tinha – ainda bem – o formato ortodoxo e dogmático das Academias propriamente ditas. (Foi a designação escolhida na época, mas meu voto sempre foi contrário, todos os meus colegas sabem rs.)

Além de escrever, ela é contadora de histórias e envolve a criançada no universo da leitura

Cronópio Godot é maravilhoso e foi selecionado pela Secretaria de Cultura do Estado, como foi tudo isso?

Por volta de 2009 eu estava com um novo livro pronto, o Cronópio Godot. E após peregrinar por várias editoras, decidi tentar uma outra via. Na época havia um “setor” na Secretaria de Cultura do Estado que selecionava e publicava autores paranaenses. Enviei os originais para aquele Conselho Editorial e fui tocando a vida. Tempos depois, para minha absoluta surpresa, recebo uma correspondência comunicando que o livro havia sido selecionado. Foi um momento bastante importante, pelos desdobramentos que foram ocorrendo em torno de Cronópio Godot. O querido Pedro Bandeira fez o prefácio do livro e esteve presente no lançamento, o que para mim foi uma dádiva.

 

Você também é atuante na vida pública da leitura, do incentivo à literatura, conte-nos um pouco da experiência;

Um outro momento que dividiu águas no meu itinerário – e no cenário cultural de Foz – foi a publicação do edital do Programa Rede Pontos de Cultura de Foz do Iguaçu. A Alefi foi uma das 14 entidades contempladas e, entre 2013 e 2015, realizamos projetos na rede municipal de ensino e ações itinerantes em vários outros espaços. Tive a felicidade de coordenar a execução deste projeto e reconhecer talentos extraordinários entre as crianças atendidas.

Atuante na defesa das políticas de incentivo à leitura, Jeane palestra e realiza oficinas e é uma apoiadora incondicional da Feira Internacional do Livro (foto Marcos Labanca)

E os desafios?

No entanto, como os demais artistas, o escritor vive sempre numa espécie de “sinuca de bico”. É bastante complexo administrar estas duas realidades contrárias: uma vontade de ser verdadeiro consigo mesmo, exercendo o que pulsa nas veias e fazer isso num país (mundo?) em que esse trabalho não é tratado como qualquer outra profissão. Por isso mesmo, nas temáticas dos meus poemas, sempre está subjacente a questão da condição humana e, sobretudo, da condição do artista. Para mim, a poesia é uma instância, uma demarcação de território. A literatura nos permite e nos garante pelo menos isso: criar uma outra lógica, uma outra existência, um universo paralelo. Por essa razão, no último livro eu homenageio Cortázar e Beckett : eles inventam um outro funcionamento de mundo, surreal, “estapafúrdio”. Eis o grande lance da literatura. E é por isso que, na oficina Palavra Mágica, por exemplo, eu levanto sempre esta lebre, fio condutor do debate: mas, afinal, o que é surreal ou não-surreal no mundo, hoje? Qual é a linha divisória ?? “Real” e “lógica” é essa vida que vivemos e “surreal” é a literatura ?? Ou seria o contrário? Onde reside o “absurdo” ?

Ativa na cena literária, mediou grandes nomes da literatura. Na foto, com Luiz Felipe Leprevost

Qual sua avaliação sobre o contexto histórico cultural da cidade?

Quanto ao panorama cultural de Foz do Iguaçu, sempre digo que temos aqui um “prato cheio”, que é esse entorno trinacional, multiétnico, multilíngue e multicultural, onde acontece um encontro fascinante de múltiplas semióticas e subjetividades. As pautas da arte e da cultura vêm sendo tratadas de forma bastante digna e louvável neste momento, penso. Evidentemente, é um processo de construção que envolve vários mecanismos, várias instâncias e setores. Isso significa que é um processo que precisa ser contínuo e ininterrupto, para que os avanços já feitos sejam preservados.

Uma mensagem às mulheres:

Às mulheres escritoras, atrizes, fotógrafas, cantoras, dançarinas, cineastas, artesãs, produtoras e criadoras eu diria o seguinte: fora da arte não há “salvação” para nossas almas corajosas. Nossas escolhas são nobres. Sigamos adiante, então. Empresto aqui o título de um filme: “a gente é para o que nasce”.

 

Longevidade
Não pretendo estragar-me.
Conservo-me no barro de Rodin.
Em hálitos literários
que fornecem longevidade ao instintos.
Conservo-me no fio de navalha da escrita.
Para não sangrar.

Jeane Hanauer